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sábado, 13 de novembro de 2010

[parte 35] O mundo de Sofia - Final

Alberto leva Sofia a uma livraria e fala sobre alertá-la sobre alguns falsos filósofos que ele considera aberrações e mostra então a seção de Espiritismo e Esoterismo. Depois caminha para outro canto da livraria e dá um presente a Sofia que a deixa pasma: um livro chamado “O Mundo de Sofia”.

Sofia ajuda a Alberto em sua estratégia para tentar escapar do livro (e mente) do Major tentando distrair a atenção do Major. Então, na festa de aniversário de Sofia, em meio de muitos acontecimentos bizarros, Sofia se despede de sua mãe e desaparece no meio da mata com Alberto.

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Nesse ponto do livro, há duas narrativas diferentes. Uma narra a vida de Alberto e Sofia no mesmo “mundo” que do Major e a outra narrativa se refere a Hilde e seu pai.

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Sofia e Alberto aparecem em uma rua no centro de uma grande cidade. Percebem então que conseguiram se livrar e comemoram muito. Contudo Sofia percebe que as pessoas não a notam e até atravessam-na como se ela fosse um fantasma. Alberto explica que isso é normal porque são personagens fictícios no mundo real e chama Sofia para ir até a casa de Hilde.

No caminho, eles param em uma lanchonete porque Alberto estava desesperado por café. Como não consegue pegar ou tomar um café por ser uma espécie de espírito, grita de raiva. Nesse momento, surge uma senhora muito parecida (se não idêntica) a vovó de chapeuzinho vermelho. Ela fala com eles, pedindo pra Alberto não se chatear e falando que há um local onde eles vivem e há um bom café. Alberto e Sofia vão até um local onde muitos personagens fictícios vivem porque suas histórias ainda são contadas. A vovó explica que enquanto aquelas histórias que fazem parte for contadas, eles viverão. Havia personagem morando lá a mais de 100 anos. A vovó então diz que eles já tem suas casas reservadas e podem ficar lá o tempo que quiser.

Sofia e Alberto acham o lugar maravilhoso, mas pede pra Alberto ir até a casa de Hilde conhecê-la, antes de voltar e ficar ali. Eles saem e vão até a casa de Hilde, onde Sofia a vê pessoalmente, o que a emociona. Por alguns instantes tenta conversar com Hilde, mas sabe que Hilde não a escuta (embora Hilde sinta isso de verdade). Vê seu pai (o Major) chegando e presencia o encontro dos dois, carregado de muita emoção. Emociona-se ainda mais por entender que nunca terá um momento como esse. Alberto a consola dizendo que Hilde também não terá muitos momentos como o de Sofia em seu novo mundo mágico e que isso é o que se pode entender como viver a vida.

Sofia se despede de Hilde (e Hilde sente) e volta para viver no lugar mais incrível que jamais poderia sonhar.

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O pai de Hilde (o Major) chega em Copenhague (para aguardar sua conexão) e então é pego de surpresa com bilhetes e falas de sua filha por todo o aeroporto. Fica um tanto bravo por ver sua filha o guiar “remotamente” e por parecer que ela está em todos os lugares, mas entende a peça pregada por Hilde. Acha muito bem elaborada e fica até com certo ressentimento de ter feito isso com Sofia, na história que escrevera.

Ao chegar em casa, encontra sua filha num momento de muita emoção. Após um tempo e depois de muitas conversas de “recém chegado de viagem”, seu pai ainda fala bastante sobre o que pra ele seria o último capítulo do livro: o universo. Após conversar bastante sobre esse assunto, Hilde o abraça pela enésima vez agradecendo o presente mais incrível do mundo. Então cogitam em fazer isso novamente, com outro tema.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

[parte 34] O mundo de Sofia - Freud

Hilde acordou com o pesado fichário no colo e com a narrativa que tinha acabado de ler na cabeça “somos um planeta vivo... um barco navegando no oceano da vida”. Levantou, trocou de roupa e foi até a beira do lago. Pegou o barco e remou até o meio do lago com a narrativa sendo passada e repassada a todo o momento. Via a dança da natureza ao seu redor e chegou a sentir um pouco do que acreditava ser o sentimento de Drawin quanto navegou pelo mundo.

Após algum tempo, voltou a sua casa, tomou seu café e se pôs novamente a ler o fichário.

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Alberto então informa a Sofia que irá falar sobre Sigmund Freud. Sofia pede que ele se apresse pois em pouco tempo iria ter que ir embora. Alberto então começa a falar sobre Freud.

Podemos chamar Freud de filósofo da cultura. Ele nasceu em 1856 e estudou medicina na Universidade de Viena. Passou a maior parte de sua vida naquela cidade, justamente durante um período em que a vida cultural vienense perimentou uma fase de apogeu. Desde cedo Freud se especializou em neurologia. De fins do século passado até quase meados do nosso século, ele trabalhou na elaboração de sua “psicologia profunda” ou psicanálise.

Por psicanálise entende-se tanto a descrição da mente, da “psique” humana em geral, quanto um método de tratamento para distúrbios nervosos e psíquicos. Freud achava que sempre havia uma tensão entre o próprio homem e aquilo que o meio exigia dele. Não seria exagero dizer que Freud descobriu o universo de impulsos que regem o homem.

Para Freud, nem sempre a razão governa nossas ações. Consequentemente, o homem não é apenas um ser racional tão defendido pelos racionalistas do século XVII. Com frequências, impulsos irracionais determinam nossos pensamentos, nossos sonhos e nossas ações. Tais impulsos irracionais são capazes de trazer à luz instintos e necessidades que estão profundamente enraizados dentro de nós.

Mesmo aparentemente isso não sendo muito novo, Freud mostrou que essas necessidades básicas podiam vir à tona disfarçadas e tão modificadas que não
seríamos capazes de reconhecer sua origem. Assim disfarçadas, elas governariam nossas ações, sem que tivéssemos consciência disso. Além disso, Freud mostrou que as crianças também têm uma espécie de sexualidade. A afirmação da existência de uma sexualidade infantil causou repulsa entre os refinados cidadãos de Viena e fez de Freud um homem extremamente impopular.

Segundo Freud, quando veem ao mundo, os bebês satisfazem suas necessidades físicas e psíquicas de forma bastante direta e desinibida. Ele chama esse “principio de prazer” de ID. O id continua com a gente a vida toda, só que aos poucos vamos aprendendo a controlar nossos desejos a fim de nos adaptarmos ao nosso meio. Aprendemos a afinar nosso princípio de prazer com o principio da realidade. Freud da o nome de EGO a essa entidade reguladora. Mas pode acontecer de nós desejarmos intensamente algo que nosso meio não aceita ou sermos sempre tão censurados que, mesmo depois de adulto, simplesmente absorvemos as regras impostas e suprimimos alguns desejos totalmente. A isso Freud da o nome de SUPEREGO.

Após um longo período de experiência com pacientes, Freud chegou à conclusão que a consciência humana era apenas uma pequena parte de toda psique humana. Há outras partes chamadas por Freud de subconsciência e consciência.

Não podemos ter presente o tempo todo, todas as experiências que vivemos. Mas tudo o que pensamos ou vivemos e tudo de que nos lembramos quando pomos a cabeça pra funcionar Freud chama de “pré-consciente”. A expressão “inconsciente” significa, para Freud, tudo o que reprimimos. Quer dizer, tudo de que nós queremos nos esquecer a qualquer preço porque consideramos desagradável, indecoroso ou repulsivo. Quando temos desejos e prazeres que pra nossa consciência, ou para nosso superego, são insuportáveis, nós simplesmente os enfiamos no porão do inconsciente e assim nos livramos deles.

Esse mecanismo funciona em todas as pessoas sadias. Para algumas pessoas, porem, o ato de banir tais pensamentos desagradáveis ou proibidos é algo tão estressante que elas ficam doentes. É que aquilo que foi reprimido desta forma continua tentando emergir para o nível da consciência, de sorte que cada vez mais energia é desprendida para se manter tais impulsos longe da crítica do consciente.

Segundo Freud, algumas vezes mecanismos são usados pelo inconsciente para liberar alguns pensamentos proibidos. Um deles é o que Freud chama de “ato falho” ou algo que dizemos ou fazemos espontaneamente e que um dia tínhamos reprimido. Outro mecanismos é chamado por Freud de “racionalização” ou tentativas de mostrar a nós mesmo, e a outros, que temos outros motivos para fazer o que fazemos em certas situações e não revelamos os reais motivos que nos levaram a agir de certa maneira, simplesmente porque eles são constrangedores demais. Também há a “projeção” que trata-se do ato de transferir a outros as características que tentamos reprimir em nós mesmos.

Continuando, para Freud é importante prestar atenção aos sinais do inconsciente. Segundo ele, o “caminho real” que leva para o inconsciente passa pelos sonhos. Por essa razão, uma de suas mais importantes obras é o livro “A interpretação dos sonhos”, publicado em 1900. Nele Freud mostra que nossos sonhos não são meros acasos. Por meio dos sonhos, nossos pensamentos inconscientes tentam se comunicar com nosso consciente.

Conversaram ainda mais, mas Sofia pediu a Alberto que a deixasse ir embora dado a hora. Alberto, obviamente, consentiu, mas pediu a Sofia que lhe fizesse um favor. Como estava muito próximo a data limite para eles, segundo Alberto, era vital que Alberto pudesse correr com os preparativos da fuga de ambos, então pediu a Sofia que distraísse o Major em sua volta pra casa a fim de conseguir executar o que precisava. Sofia consentiu e saiu.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

[parte 33] O mundo de Sofia - Charles Darwin

Hilde acordou cedo. Sonhou a noite toda com trabalhadores em fábricas precárias, protestos e logo se lembrou do exercício proposto por John Rawl e de alguma forma ficou feliz em estar em Bjerkely. Então pegou seu fichário e voltou a ler.

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Uma pessoa bate a porta de Alberto. Era Noé trazendo consigo uma gravura que mostra todos os animais que foram salvos do grande dilúvio, entregou a Sofia e foi embora. Então Alberto, um tanto incomodado com a aparição de Noé, pediu para continuar com a aula.

Agora vamos falar de Charles Darwin. Darwin era biólogo e pesquisador natural, mas ele foi o cientista que, mais do que qualquer outro em tempos mais modernos, questionou e colocou em dúvida a visão bíblica sobre o lugar do homem na criação.

Darwin nasceu em 1809 na cidadezinha de Shrewsbury. Seu pai, o doutor Robert Darwin, era um médico muito conhecido na cidade e educou seu filho de forma muito severa. Quando Charles entrou para o liceu de Shrewsbury, o reitor dizia que ele era um jovem que vivia disperso e não fazia nada de sensato. Para o reitor, “sensato” era ficar decorando vocábulos gregos e latinos. E quando falava em viver disperso, ele estava pensando, entre outras coisas, no fato de Charles colecionar besouros de várias espécies.

Durante a época em que cursou teologia, Darwin interessou-se mais por aves e insetos do que pelas matérias do seu curso. Por esta razão, nunca tirava boas notas em suas provas do curso de teologia. Paralelamente ao curso de teologia, porém, ele conseguiu certo reconhecimento como pesquisador natural. Darwin também se interessava por geologia, provavelmente o ramo da ciência em fase de maior expansão naquela época. Em abril de 1831, depois de ter sido aprovado em seu exame de teologia, ele viajou pelo norte do País de Gales a fim de estudar formações rochosas e pesquisar fósseis. Em agosto do mesmo ano, com apenas vinte e dois anos, recebeu uma carta que viria a determinar todo o seu futuro.

A carta era de John Steven Henslow, seu amigo e professor. Nela, seu amigo dizia que lhe haviam pedido para indicar o nome de um pesquisador natural a um certo capitão Fitzroy, que, a mando do governo, partiria numa expedição com a incumbência de fazer o mapa cartográfico do extremo sul da América do Sul. Na carta, Henslow dizia que havia indicado o nome de Darwin, a seu ver a pessoa mais qualificada para tal missão; dizia, ainda, que não fazia a menor ideia de quanto pagariam para o tal pesquisador, mas que a viagem duraria dois anos.

Darwin ficou muito entusiasmado com a ideia, mas naquela época os jovens não podiam fazer nada sem o consentimento de seus pais. Darwin pediu a seu pai, que depois de muito vaivém acabou concordando e ainda teve de pagar a viagem do filho. Quanto ao salário, soube-se depois que não havia qualquer honorário previsto para o pesquisador.

O navio da marinha se chamava H. M. S. Beagle. Em 27 de dezembro de 1831, o Beagle zarpou de Plymouth com destino a América do Sul e só voltou para a Inglaterra em outubro de 1836. Os dois anos inicialmente previsto transformaram-se, portanto, em cinco. É que a viagem a América do Sul acabou se transformando numa volta ao mundo. E estamos falando aqui da mais importante viagem de pesquisa realizada em tempos mais modernos.

Darwin conseguiu reunir um farto material de pesquisa que, ao poucos, ia sendo enviado a sua terra natal. Suas reflexões sobre a natureza e sobre a história da vida, porém, ele as guardava para si. Quando voltou para casa, aos vinte e sete anos, já era um pesquisador famoso.

Dentro de si já havia também uma clara noção daquilo que viria a ser a sua teoria da evolução, mas apesar disso, muitos anos ainda se passaram até que ele publicasse sua obra principal. Isto porque Darwin era um homem muito cauteloso, traço característico de um bom pesquisador natural.

Sua obra “Sobre a origem das espécies” publicada em 1859 suscitou os mais calorosos debates na Inglaterra. Nesta obra Darwin defendia duas teorias ou teses principais: em primeiro lugar ele dizia que todas as espécies de plantas e animais que vivem hoje descendem de formas mais primitivas, que viveram em tempos passados. Ele pressupõe, portanto, uma evolução biológica. Em segundo, Darwin explica que esta evolução se deve à “seleção natural”.

A teoria da descendência de formas primitivas não era original de Darwin, mas ele foi o único que conseguiu reunir um vasto acerto para constatar que tal teoria era factível. Em suas viagens, Darwin observou alguns fósseis e outros indícios claros que evidenciaram essa teoria. Também nessa viagem, Darwin teve contato, através de um dos livros que levou, com uma teoria que lhe chamou bastante sua atenção, a teoria de Lyell. Segundo essa teoria, minúsculas alterações são capazes de provocar grandes alterações ao longo do tempo.

Baseado em Lyell e na observação dos embriões dos mamíferos que Darwin conseguiu achar a prova cabível. Ele observou que todos os embriões de mamíferos tinham quase a mesma forma e se desenvolvem do mesmo jeito. Darwin então consegue formular a teoria de evolução nos moldes científicos. Pequenos detalhes em cada um dos embriões diferenciavam elefantes de macacos, por exemplo.

Para explicar essas pequenas diferenças, Darwin mostra que as questões de adaptação a diversos fatores como alimentação, reprodução, autopreservação dentre outros faziam a diferença entre a permanência e a extinção de uma espécie.

Para essas pequenas alterações, Darwin dá o nome de mutação. São fugas do padrão da espécie que, em determinados momentos são ruins e não se perpetuam dentro da espécie. Mas em certas ocasiões podem fazer a diferença entre a continuidade e a extinção da espécie.

Um bom exemplo para a seleção natural seria pensar em três vacas leiteiras. Suponha que você possa cruzar apenas duas delas. Tendemos a pegar aquelas que dão mais leite, sejam mais resistentes e possuam características que nos mostre superioridade. Isso seria uma seleção artificial feita por nós, mas o princípio é o mesmo para a seleção natural. Darwin conseguiu ver claramente esse principio em várias ocasiões durante sua viagem.

Outro bom exemplo, dessa vez mostrando o lado da ação da mutação nos seres vivos, é de um besouro que vive em uma das florestas da europa. O local que vive é uma árvore de uma dada espécie que tem a cor acinzentada. Por algum tempo observou-se que aqueles que nasciam com cores mais escuras tendiam a ser mais detectados pro predadores e, por isso, perecerem depressa, impedindo assim que seu gene mais escuro continuasse. Com a poluição, essas árvores passaram a ficar mais escuras e as coisas se inverteram. Os besouros mais claros (a cor que era normal) passaram a fica em evidência e começaram a desaparecer. Aqueles que nasciam com a anomalia de ficar mais escuro, começaram a ter tempo de procriar dado que não ficavam mais em evidência. O resultado é que em algum tempo, todos os besouros passaram a ficar mais escuros, ou seja, a mutação evoluiu a espécie.

Darwin também arrisca palpites, embora não seja costumeiro, no que diz respeito a origem de tudo: “se (e como é imenso esse “se”!) pudéssemos imaginar um pequeno tanque aquecido, dentro do qual existam todo o tipo de sais de amônia e de fósforo, luz, calor, eletricidade etc. e se imaginarmos que lá dentro uma reação química dá origem a uma proteína que, por sua vez, é capaz de sobre alterações mais complexas...”

Por fim, baseado nos escritos de Darwin podemos dizer que somos um planeta vivo em si mesmo, que pertence a um outro planeta vivo. Somo um grande barco navegando ao redor de um sol incandescente no universo, mas cada um de nós também é um barco em si mesmo, carregado de genes navegando pela vida.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

[parte 32] O mundo de Sofia - Marx

Hilde quis pregar uma peça em seu pai e ligou para uns amigos da família que moravam em Copenhage (conexão de seu pai na volta para casa). Hilde explicou tudo detalhadamente e eles aceitaram fazer essa brincadeira com o pai dela.

Hilde e sua mãe passaram juntas todo o dia (uma espécie de compensação pelo sumiço dela nos últimos dias). Já no final da noite, Hilde voltou a pegar o fichário para ler.

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Sofia voltou da conversa com major e logo foi questionada novamente pela mãe. Contudo, com todo esse tempo, ela já sabia lidar bem com a situação e a coisa se resolveu. Sua mãe lhe informou que havia chego uma carta e Sofia logo foi ver o que era. A carta trazia o seguinte texto: “De que serve o eterno criar, se a criação em nada acabar?”

Na manhã seguinte, Jorunn veio até a casa de Sofia e ambas ficaram revendo todos os detalhes da festa.

Na quinta-feira, 21 de julho, Alberto ligou. Falou alguma coisa sobre saber como sair da prisão que eles estavam, mas não foi muito claro. Pediu a Sofia que fosse até ele nesse dia e no outro pra que haja tempo de ver tudo que precisam. Sofia então sai para encontrá-lo.

A caminho do encontro com Alberto, Sofia se depara com Scrooge, um rico contador sentado em sua escrivaninha em meio aos seus papeis. Mais a frente, Sofia encontra uma menininha mal trapinha que lhe oferece uma caixa de fósforos. Sofia fica com dó e compra a caixa para ajudá-la. Então a menininha fala que está a mais de 100 anos ali tentando vender isso e não consegue. Finaliza a conversa falando que trabalha para o Scrooge.

Sofia, irritada, leva a menina até Scrooge e cobra dele um pouco mais de decência em tratar seus empregados. Scrooge afirma que isso é bobagem e que "só há justiça entre iguais". A menininha, enfurecida, ateia fogo assustando Scrooge e Sofia. Sofia corre para apagar o fogo e consegue, mas no final vê que está sozinha na mata com uma caixa de fósforo na mão.

Sofia chega a casa do major e conta a Alberto. Alberto diz, meio irritado, que isso tudo foi feito pelo Major para dar a introdução em seu próximo assunto, Karl Marx e então começa sua aula.

Em 1841, quando Kierkegaard foi a Berlim, é provável que ele tenha se sentado ao lado de Karl Marx nas palestras de Schelling. Kierkegaard tinha escrito uma tese sobre Sócrates e, na mesma época, Karl Marx tinha defendido seu doutorado sobre Demócrito e Epicuro, ou seja, sobre o materialismo na Antiguidade.

De inicio é interessante dizer que sua tese não é o que foi chamado posteriormente de Marxista. O próprio Marx se tornou um Marxista muito depois desse movimento ser consolidado.

Suas testes diziam que as relações materiais de uma sociedade são chamadas de bases destas sociedades. A política, religião, moral, arte, filosofia e ciências são chamadas por sua vez de superestruturas. É uma clara alusão a uma construção onde se tem a base (alicerce) para pode existir as estruturas em cima dela.

Nessa linha de pensamento, Marx afirma que as condições materiais sustentam todos os pensamentos e idéias de uma sociedade, ou seja, uma superestrutura de uma sociedade é o reflexo de sua base material.

Então Marx trabalha esses conceitos e afirma que a relação entre base e superestrutura de uma sociedade há o que ele chama de "tensão", nos moldes de Hegel, por isso Marx é conhecido como um "materialista dialético".

Então Marx diz que, quando se observa de perto a base (a sociedade), esta apoiada-se em três camadas. A primeira camada ele chama de “condições naturais de produção” de uma sociedade, ou seja, o habitat natural onde está uma sociedade como por exemplo a vegetação, riqueza do solo e outros. Isso é uma espécie de muro de arrimo e dita o tipo que a sociedade que será moldada, sua culturas e outros pontos importantes.

A próxima camada é chamada “força de produção” ou a força de trabalho do próprio homem, juntamente com suas ferramentas e equipamentos que Marx chama de “meios de produção”.

A ultima camada, e a mais complicada, é chamada de “relações de produção”. Trata-se de quem detém os meios de produção de uma sociedade e de como o trabalho é organizado no interior da sociedade. Para Marx, o modo de produção de uma sociedade determina que relações políticas e ideológicas podemos encontrar nela.

Marx afirma que, em geral, era a classe dominante numa sociedade que determinava o que é certo e o que é errado para a própria sociedade. Para ele, toda a história era a história das lutas de classes, ou seja, a quem deveria pertencer os meios de produção.

Quando mais jovem, Marx estudava a dialética entre homem e natureza então formulou uma conclusão: quando o homem altera a natureza, ele mesmo se altera. Em linhas gerais pode-se dizer que Marx dizia que quando o homem trabalha, ele interfere na natureza e deixa nela suas marcas; mas neste processo de trabalho também a natureza interfere no homem e deixa marcas em sua consciência.

Nessa linha de raciocínio, Marx afirma que o conhecimento do homem está diretamente e intimamente relacionado ao se trabalho. Como no sistema capitalista vivido por Marx o trabalhador trabalha para outra pessoa, seu trabalho é algo externo a ele mesmo; em outras palavras, seu trabalho não lhe pertence. Com isso o trabalhador acaba por se alienar em seu trabalho e, portanto, aliena-se com relação a si mesmo perdendo sua dignidade humana.

Na visão de Marx, quando falamos em capitalismo, falamos do trabalhador ceder seu trabalho e sua condição de dignidade humana para outra pessoa de forma escrava ou semi-escrava (pseudo salário). Isso motiva Marx a publicar, em 1848 com seu amigo Friedrich Engels, o famoso “Manifesto Comunista”.

Seu principal alvo era as fabricas capitalistas que tinham pessoas fabricando coisas, deixando cada vez mais ricos seus donos, enquanto os trabalhadores viviam em condições subumanas. A isso ele chama de “exploração”.

Detalhando melhor, quando algo é criado numa fábrica, isso tem um valor de mercado. Quando se é descontado o valor de mercado, o salário do empregado e os impostos, sobram-se sempre certa quantia, a essa quantia Marx chama de “mais-valia” ou lucro. Contudo para Marx, esse lucro não é do dono da fábrica, é do empregado que fez o produto, por isso Marx usa o termo exploração quando fala sobre esse relacionamento.

Com essa parte que lhe sobra, o capitalista dono da fábrica, tende a aplicar um montante do lucro em benfeitorias em sua fabrica, visando a modernização dela. Essa modernização vira um diferencial competitivo (possibilitando preços mais baixos) para o capitalista. Também acaba por gerar desemprego de alguns dado a não-serventia trazido pela modernização. Esse diferencial logo é alcançado por outros capitalistas e assim o ciclo se reinicia. Então demite-se mais, abaixa-se salários para não sacrificar os lucros e a coisa toda gira em torno disso. É disso que se originam as grandes crises, na visão de Marx.

Marx então afirma que esse modo de produção é contraditório em si mesmo por falta um controle racional que consiga frear esse ciclo antes de sua autodestruição e, por sua vez, da inevitável crise.

O desfecho disso, segundo Marx, seria uma grande revolução proletária onde o proletariado subjugaria a burguesia. Essa fase de transição seria a “ditadura do proletariado” e culminaria no que Marx acreditava ser a sociedade sem classes sociais, ou o comunismo, onde cada um trabalharia de acordo com sua capacidade e ganharia de acordo com suas necessidades.

Apesar dos cientistas políticos atuais provarem que Marx estava enganado em vários pontos importantes, inclusive em suas análises críticas sobre o capitalismo e sobre a desconsideração do uso da natureza, o marxismo provocou grandes transformações.

O socialismo, que se baseia em Marx, revolucionou muitas sociedades em ferozes embates políticos e, embora não totalmente implantado, contribuiu extraordinariamente para a vida que todos temos hoje, muito mais humana quando comparado à vida dos tempos de Marx.

Um grande exercício de sociedade justa, cerne das teorias de Marx, pode ser feito por qualquer um. Esse exercício foi proposto por John Rawl, um filosofo Marxista.

Imagine que você fosse membro de um alto conselho cuja a tarefa fosse elaborar todas as leis de uma sociedade do futuro. Os membros do conselho teriam de pensar em absolutamente tudo, pois assim que estivessem de acordo com todas as questões e assinassem as leis, cairiam mortos e em alguns segundos voltariam a vida exatamente na sociedade cujas as leis tinham elaborado. E agora vem o mais importante: nenhum deles saberia onde acordaria nesta sociedade, que dizer, ninguém saberia qual seria a posição que iria ocupar dentro dela.

Tal sociedade seria uma sociedade justa, pois cada um estaria entre seus iguais, mesmo no quesito do sexo, porque poderiam nascer homens ou mulheres, o que acarretaria uma sociedade igualmente atrativa tanto para homens quando para mulheres.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

[parte 31] O mundo de Sofia - Kierkegaard

Hilde desceu e foi preparar um lanche para levar a sua mãe, afinal sua mãe estava o dia todo preparando o barco para a volta do pai de Sofia.

Hilde e sua mãe conversaram sobre a volta de seu pai. Hilde quis confirmar que seu pai faria uma escala em Copenhague, assim como um casal chamado Anne e Ole.

Então, ao final do lanche, Hilde disse a sua mãe que iria voltar a ler. Sua mãe concordou, com um ar de reprovação por ter a sensação que o pai de Hilde estava querendo controlar as coisas remotamente. Tudo porque o major havia pedido a Hilde que acabasse de ler o livro antes que ele chegasse e isso estava tomando todo o tempo de Hilde.

Hilde mencionou, num tom irônico, que seu pai andava controlando bem mais que isso ultimamente, e voltou ao seu quarto para continuar a leitura.

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Dessa vez Sofia foi visitada pessoalmente por Alice (do “Pais das maravilhas”) a qual lhe entregou dois frascos: um vermelho e um azul. Ambos traziam a instrução: “beba-me”.

Sofia relutou um pouco, mas com a aprovação de Alberto, decidiu experimentá-los iniciando pelo frasco vermelho. Assim que tomou o liquido vermelho teve a sensação que tudo estava grudado, formando uma coisa só.

Decidiu então tomar o liquido azul e passou instantaneamente a olhar tudo de maneira reversa, como se cada canto, cada item fosse um mundo novo e tivessem ocorrendo ali milhares de acontecimentos.

Alberto entendeu o significado do liquido. O frasco vermelho era a essência do panteísmo (a filosofia da unidade) e o frasco azula era a essência do individualismo. Então Alberto continuou sua aula.

Aos 17 anos, Sören Kierkegaard começou a estudar teologia, mas logo foi se interessando cada vez mais por questões filosóficas. Doutorou-se aos vinte e oito anos com a tese “O conceito da ironia de Sócrates”. Ele viajou em 1841 para Berlim, onde assistiu a conferências de alguns filósofos, dentre eles Schelling.

Kierkegaard assumiu uma postura radicalmente oposta ao sistema de Hegel. Para Kierkegaard, mais importante do que a busca de uma VERDADE com letras maiúsculas era a busca por verdades que são importantes para cada indivíduo. Em suma, Kierkegaard não está nem um pouco interessando numa descrição genérica da natureza ou do “ser” humano. O fundamental para ele é a existência de cada um. Para ele, o homem não experimenta sua existência atrás de uma escrivaninha. Somente quando agimos, e sobretudo quando fazemos uma escolha, é que nos relacionamos com nossa própria existência.

Exemplificando, se alguém é atingido com uma flecha venenosa, a pessoa não fica confabulando se a flecha é da madeira tal, se a ponta da flecha é de osso ou de pedra. Ela se preocupa de verdade é em sobreviver e seu foco passa a ser pensar muito sobre isso.

Kierkegaard cria então um conceito de que a verdade é subjetiva, ou seja, as verdades realmente importantes são as verdade pessoais. Para ele, é preciso distinguir entre a questão filosófica para saber se Deus existe e a relação do indivíduo para com essa mesma questão. Trata-se aqui de questões com as quais cada um tem de se confrontar sozinho. Além disso, só podemos abordar estas questões através da fé. Kierkegaard não considera essencial aquilo que somos capas de compreender com a nossa razão.

Antes de Kierkegaard, muitos tinham tentado provar a existência de Deus ou então entendê-la racionalmente. Mas quando nos envolvemos com tais provas de existência de Deus ou com tais argumentos racionais, perdemos nossa fé, e com ela, nosso fervor religioso. Isso porque o fundamental não e saber se o cristianismo é verdadeiro, mas se é verdadeiro pra mim.

Kierkegaard achava que havia três possibilidades (ou estágios) diferentes de existência: estágio estético, estágio ético e estágio religioso.

Quem vive no estágio estético vive o momento e visa sempre o prazer. Bom é aquilo que é belo, simpático e agradável. Aquele que vive no estado estético está sujeito a sentimentos de medo e sensações de vazio.

O próximo passo para aqueles que vivem no estágio estético e o estágio ético é marcado pela seriedade e por decisões consistentes, tomadas segundo padrões morais (como a “ética do dever” de Kant). O essencial não é necessariamente o que se considera certo e errado e sim a decisão de se posicionar em relação ao que é certo e errado. O esteta se interessa apenas pelo que é divertido ou entediante.

Já aqueles que evoluem mais, vivem no que Kierkegaard chama de estágio religioso. Preferem a fé ao prazer estético e aos mandamentos da razão. Segundo palavras do próprio Kierkegaard, embora possa ser desesperador cair nas mãos do Deus vivo, só nesse caso o homem pode se reconciliar com sua própria vida.

Sofia então se despede de seu professor porque vê que já está quase na hora de retornar a sua casa e não quer mais problemas com sua mãe.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

[parte 30] O mundo de Sofia - Hegel

Hilde ficou pensando em como pregaria uma peça em seu pai, afinal não seria justo o que ele estava fazendo com Sofia e Alberto, então continuou a leitura.

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Geog Wihelm Friedrich Hegel (1770 – 1831) foi um legítimo filho do Romantismo. Hegel diz que a razão é algo dinâmico, um processo. A “verdade” não é outra coisa senão esse processo. Para ele, fora do processo histórico não existe qualquer critério capaz de decidir sobre o que é mais verdadeiro e o que é mais racional.

Para Hegel, não podemos separar uma filosofia ou um pensamento do seu contexto histórico. Ele acreditava que a razão é “progressiva”, pois sempre se acrescenta algo novo ao que já existia. Isso significa que o conhecimento humano progride cada vez mais e camainha com a humanidade toda em sua eterna marcha que resultaria em um ruma a uma consciência cada vez maior de si mesmo.

Hegel dizia que quem se dedica ao estudo sério da história percebe que geralmente um novo pensamento surge com base em outros formulados anteriormente. Uma vez formulado, porém, o novo pensamento será inevitavelmente contradito por outro. Aparecem, assim, duas formas de pensar que se opõem e entre elas há uma tensão. Esta tensão é quebrada quando um terceiro pensamento é formulado, dento do qual se acomoda o que havia de melhor nos dois pontos de vistas precedentes. A toda essa dinâmica, Hegel dá o nome de “evolução dialética”.

Em suma, Hegel cria a “tese” ou posição (a primeira nova idéia), a “negação” ou antítese (a segunda nova idéia, que é contrária a primeira) e por fim surge a “negação da negação” ou síntese onde se extrai o melhor das duas idéias.

Com relação à sociedade, Hegel acredita que o Estando é “mais” do que o cidadão isolado. Ele é mais do que a soma de todos os cidadãos. Hegel acha impossível “desligar-se” da sociedade, por assim dizer. Para ele, quem dá as costas à sociedade em que vive e prefere “encontrar a si mesmo” é um louco.

Para justificar sua posição sobre a sociedade, Hegel argumenta que o espírito do mundo retorna a sim mesmo em três estágios. O primeiro ele chama de “razão subjetiva” que é quando um espírito do mundo toma consciência de si mesmo. Depois, o espírito do mundo atinge um nível mais elevado de consciência na família, na sociedade e no Estado e Hegel dá a esse nível o nome de “razão objetiva”. Mas só na “razão absoluta” é que, segundo Hegel, o espírito do mundo atinge a forma mais elevada de autoconhecimento. Essa razão absoluta é a arte, a religião e a filosofia, mas dentre elas, a filosofia é a forma mais elevada da razão, pois na filosofia o espírito do mundo reflete sobre seu próprio papel da história. Portanto é só na filosofia que o espírito do mundo encontra-se a si mesmo.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

[parte 29] O mundo de Sofia - O Romantismo

Hilde esticou as pernas, deixando escorregar o fichário. Depois colocou-o no chão. Dormiu até às onze horas quando acordou e desceu pra tomar café. Sua mãe a chamou para ajudá-la na manutenção do barco (barco que seu pai gostava muito) mas Hilde disse que preferia voltar a ler.

Depois de comer, Hilde voltou para seu quarto, arrumou a cama e ajeitou-se confortavelmente com o fichário apoiado nos joelhos.

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Sofia voltou pra casa. Encontrou sua mãe preparando uma recepção para alguns convidados. Mesmo que a festa principal de aniversário seria ainda no sábado, sua mãe havia decido receber os mais próximos de Sofia.

Quando Jorunn chegou um pouco mais tarde, Sofia a convidou para elaborar o texto de seu convite de aniversário. O tema da festa seria “festa filosófica” e as duas se divertiram muito elaborando o texto filosófico da festa.

Só na terça-feira Alberto ligou para Sofia falando que havia demorado em entrar em contato porque estava trabalhando duro para o plano deles. Ele cita também que irá a festa e lembra que o Major voltará para Bjerkely no mesmo dia e combina com Sofia de se encontrarem na cabana do major para continuar as aulas de filosofia. Sofia confirma e na hora marcada vai até a cabana para continuar os diálogos filosóficos com Alberto.

O Romantismo foi a ultima grande época cultural da Europa, chegando ao final de uma longa história. Ele começou em fins do século XVIII e durou até meados do século XIX. Depois de 1850 não faz muito sentido falarmos de épocas inteiras que compreendem igualmente a poesia, a filosofia, a arte, a ciência e a música.

As novas palavras de ordem eram “sentimento”, “imaginação”, “experiência” e “anseio”. Alguns pensadores do Iluminismo também tinham alertado para a importância dos sentimentos e criticado o fato dos iluministas enfatizarem em demasiado a razão.

Há muitos paralelos entre o Renascimento e o Romantismo. Um deles é a importância que se na ao papel da arte no processo de conhecimento humano. Kant e os Românticos afirmavam que um artista pode nos dizer coisas que um filósofo não é capaz de nos dizer. Isso porque para eles nem sempre podemos expressar tudo em palavras, então a arte entra como uma língua de expressões sentimentais. O artista cria a sua própria realidade nos moldes da criação do mundo por Deus. O anseio por coisas longínquas e intangíveis foi um traço típico dos românticos. Isso desperta interesse pelos tempos passados e por outras culturas como a cultura oriental.

O Romantismo foi, sobretudo, um fenômeno urbano. Os “românticos” típicos eram jovens, muitas vezes estudantes, embora nem sempre alunos exemplares. Há paralelos claros entre eles e a cultura hippie que viria nos tempos mais atuais. Para os românticos a ociosidade era o ideal do gênio e a indolência a primeira virtude do romântico. Era dever do romântico viver a vida, ou imaginar-se distante dela. As obrigações e tarefas cotidianas eram preocupações dos “filisteus”.

Os românticos viviam pouco e morriam de doenças como a tuberculose, quando não se suicidavam. Os que viviam mais acabavam por deixar de ser românticos e se tornavam burgueses e conservadores.

O amor intangível era um traço marcante dessa época assim como o amor pela natureza e por sua mística. Isso remota aos quadros de paisagens belas uma vez que os românticos, por viverem em cidades, focavam enormemente a natureza intocada.

O Romantismo também foi uma reação à visão de mundo mecanicista do Iluminismo. A natureza volta a ser vista como um todo, relembrando Spinoza, Plotino e aos filósofos do Renascimento. A natureza era vista com um grande “eu” e os românticos usavam expressões como “alma do mundo” ou o “espírito do mundo” para se referenciar a ela.

O filósofo mais importante do romantismo foi Friedrich Wilhelm Schelling (1775–1854). Ele tentou suprimir a divisão entre “espírito” e “matéria” dizendo que a natureza inteira, tanto alma quando a realidade física, era expressão de um único Deus ou “espírito do mundo”. Para Shelling, a natureza era o espírito visível e o alma o espírito invisível pois por toda parte podemos sentir e perceber um espírito ordenador, estruturador.

Então Alberto prosseguiu falando sobre detalhes do Romantismo à Sofia.

Após algum tempo, um rapaz de turbante apareceu dizendo que era Aladim e, ao esfregar sua lâmpada, surge um gênio que deseja novamente feliz aniversário a Hilde, mesmo sabendo que a data do seu aniversário possivelmente já havia passado.

Alberto fica com uma grande cara de descontentamento, sempre dizendo que o Major não passa de um metido, mas que no fundo entende que ele só quer ensinar seu anjo, Hilde, sobre essa tão preciosa filosofia. Diz então que, para o Major ter feito isso, deve ser devido ao fato do Major estar com sono e seria precisamente nesse momento que Alberto e Sofia teriam alguma chance.

Então Alberto e Sofia suplicam a Hilde que não deixe barato essa história com o Major. Também convidou ao Major, Hilde e ao leitor do livro a pensar que, mesmo o Major usando eles para ensinar filosofia a Hilde, quem sabe não havia alguém também usando o Major e Hilde para ensinar filosofia da mesma forma, ou seja, que sabe o Major também não estaria sentindo um pouco de seu próprio veneno hein?

domingo, 11 de julho de 2010

[parte 28] O mundo de Sofia - Kant

Por volta da meia-noite é que o major Alberto Knag telefonou para deseja feliz aniversário a Hilde. Falaram principalmente sobre seu presente de aniversário, o fichário com o texto de “O mundo do Sofia”, e sobre alguns pontos que Hilde já tinha lido. Então Hilde foi se deitar meia hora depois, contudo antes ainda leu mais algumas páginas do fichário.

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Alberto e Sofia lidaram da melhor maneira possível com o novo cartão de aniversário para Hilde. Então Alberto comentou que concentraria seus esforços para ignorar os fenômenos estranho que vinham ocorrendo constantemente e, segundo eles, originados pelo Major. Então Alberto passou a falar sobre Kant com Sofia.

Immanuel Kant nasceu em Königsberg, na cidade da Prússia oriental em 1724. Era filho de um seleiro e passou quase toda sua vida na cidade natal, até falecer aos oitenta anos. Sua família era muito fervorosa na fé cristã, razão pela qual a convicção religiosa do próprio Kant foi um elemento muito importante para a sua filosofia pois ele também pretendia salvar o fundamento da fé Cristã.

Dos filósofos que falamos, Kant foi o primeiro a trabalhar como professor em uma universidade e um dos primeiros “especialistas em filosofia”, ou seja, além de filósofo ele era também um estudioso da filosofia e sua história.

Kant achava que tanto os sentidos quanto a razão eram fundamentais para o homem. Contudo ele acreditava que os racionalistas atribuíam uma importância exagerada para a razão e os empíricos faziam o mesmo para os sentidos.

Como ponto de partida, Kant concorda com Hume no que tange ao fato que os sentidos fornecem a base do que conhecemos e da percepção do mundo que vivemos. Mas ele também concorda com os racionalistas no que tange ao fato que a razão contém pressupostos importantes para o modo de como percebemos o mundo e tratamos nossos conhecimentos.

Use óculos com lentes vermelhas. Você verá todo o mundo a sua volta vermelho, mas isso não significa que tudo realmente seja vermelho. É essa alusão que Kant usa para exemplificar que os sentidos nos ajudam a perceber/conhecer tudo, mas nossa razão fornece uma lente ou prisma para interpretarmos o que vemos e conhecemos.

Kant então chama a atenção para que o homem, como possui o “guia” da razão para lidar com o que percebemos e sentimos, tem implicitamente limitações no que consegue compreender dado as limitações impostas pelo seu "guia". Sendo assim, questões como “vida após a morte”, “céu”, “inferno”, “universo” e outras mais devem fazer parte de nossa vida e das nossas “eternas questões”, mas nunca o homem conseguirá realmente respondê-las de modo definitivo.

Dado esse “limitador” natural, Kant afirmava que essas discussões não significavam que estamos querendo de fato responder a essas questões. Estamos, na realidade, tentando trazer a tona um conceito que foge da corrente racionalista e empírica, o elemento “”. Para Kant, a fé não é sentido ou razão, ela é a forma que encontramos de explicar o que pra nós nunca será explicável.

No campo social, Kant não acredita que nossa regência moral seja baseada somente nas emoções ou venha intrinsecamente gravada em nossa emoção. Para Kant, existe o que ele chama de “imperativo categórico” onde há leis gerais, imutáveis e definidas que regem todos e em qualquer lugar que um homem se encontre. A isso ele chama de “lei moral” e postula: “Devemos agir de modo a podermos desejar que a regra a partir da qual agimos se transforme numa lei geral” ou, em suma, “Devemos agir apenas segundo aquelas máximas através das quais possamos desejar que virem leis universais”.

Nessa linha, Kant também diz que temos verdadeiramente liberdade quando conseguimos agir racionalmente mesmo quando nossas emoções ditam sentido opostos. Sem isso fica impossível praticarmos a lei moral porque constantemente somos reféns de nossos desejos criados pelas nossas emoções ou sentidos. Se conseguimos romper isso, somo seres livre para efetuarmos escolhas, caso contrário somo seres irracionais como os animais.

Tendo dito isso, Alberto pediu a Sofia que refletisse sobre os estranhos acontecimentos que estavam lhes ocorrendo e que percebesse que tudo aquilo era fruto de seus sentidos. Como acabara de falar, eles eram livres pra julgar se o que viam eram algo que devessem ou não se aceitar, afinal eles eram livres pra isso. Baseado nessa liberdade, Alberto afirmava que estava trabalhando em algo fantástico para eles para que conseguissem se livrar do Major, mas que no momento não poderia lhe dizer nada, bastava que eles prosseguissem com suas aulas.

No cominho de volta a sua casa Sofia, achando a coisa mais estranha possível, encontra-se com o “ursinho Pooh” dos desenhos animados. Ele têm uma carta que deve ser entregue a uma tal de “Hilde do espelho” nas palavras dele. Sofia diz que pode fazer isso e ajuda o ursinho.

Na carta, o pai de Hilde afirma que Alberto não citou uma das coisas mais importantes sobre Kant. Foi Kant que criou a idéia da criação de uma “liga das nações” com o objetivo de gerir a idéia da coexistência pacífica entre todas as nações. Segundo Kant, isso aconteceria depois que os homens começassem a ver (através do que ele chama de “razão prática”) que somente com a paz todas as nações poderiam realmente ganhar e lucrar, abandonando assim o que Kant chama de “estado natural”, ou seja, o impulso emocional destrutivo do homem que só pensa sem si. Essa idéia se torna real em 1920 (após a grande guerra) e a conhecemos hoje como ONU (Organização das Nações Unidas).

quarta-feira, 30 de junho de 2010

[parte 27] O mundo de Sofia - O iluminismo

Sofia acordou na manhã seguinte com sua mãe entrando no quarto com uma bandeja cheia de presentes e desejando feliz aniversário. Em suma o início da manhã foi como qualquer outro dia de aniversário. Sofia abriu seus presentes e sua mãe ficava relembrando de quando ela era criança.

Em um dado momento sua mãe sugere que acha melhor ficar em casa e não ir trabalhar. Sofia a questiona e sua mãe diz que está preocupada com a filha por achar ela muito perturbada no dia anterior. Sofia a interroga sobre o mesmo comportamento e sua mãe diz que ela estava se culpando por tudo isso. Também questiona Sofia se Alberto tem alguma relação com tudo isso. Sofia deixa claro que não e pede pra sua mãe ir trabalhar.

Pouco depois de sua mãe ter saído para o trabalho, Alberto liga na casa de Sofia e eles conversam sobre os acontecimentos. Alberto cita algo com relação a que suas aulas não podem ultrapassar o dia de São João e que, para ganhar tempo, irá encontrá-la para continuar seu curso de filosofia em um local já conhecido, “a cabana do major”. Sofia o interroga do porque e Alberto fala de que, dado os fatos anteriores, supõe que o Major até essa data retornará e a história a qual Sofia e Alberto estão inseridos deixará de ser produzida porque já terá chegado ao fim.

Mas Alberto cita que pretende arrumar um jeito de modificar um pouco o curso de toda essa história. Cita que quer usar a própria filosofia como arma, uma vez que, segundo Descartes, “Penso logo existo”. Cita então que pretende mostrar ao Major que eles, com isso, irão provar que não são somente personagens fictício que o Major use para ensinar filosofia para seu anjo Hilde, mas não revela nada a respeito por segurança.

Dito isso, Alberto passa a falar do assunto a que ligou, ou seja, falar resumidamente sobre o Iluminismo. Sofia tenta dizer que precisa ir a escola buscar seu boletim, mas Alberto a cobra sobre a postura de uma verdadeira filósofa e que deixe essa conversa de boletim de lado dado o momento em que estão vivendo, embora Alberto tenha plena certeza que Hilde jamais faria isso. Sofia então combina com Alberto que passará rapidamente na escola e irá para a cabana do major para que continuem.

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Hilde fica com a consciência pesada por ter faltado à aula em seu último dia. Seu pai a deixou sem argumentos. Mas estava torcendo por Alberto e Sofia no planejamento que estavam fazendo sobre mostrarem ao Major (seu pai) que realmente poderia ser mais que simples personagens de um livro direcionado para Hilde.

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Sofia passa na escola e, como em todos os outros aniversários, a história se repete. Comprimentos, desejos de boas férias, despedidas e outras formalidades. Sofia sai correndo em direção de sua casa para conseguir cumprir o combinado com Alberto, inclusive deixando Jorunn para trás dizendo que tinha um compromisso muito importante.

Ao chegar próximo à caixa postal de sua casa, Sofia vê mais cartões postais de feliz aniversários, inclusive com um “feliz aniversário” para ela diretamente (não apenas para Hilde como era de costume). Outro cartão trás mais uma vez o feliz aniversário para Hilde e cita que Sofia irá estudar sobre o Iluminismo.

Ao chegar à “cabana do major”, Sofia entre os cartões que recebeu. Alberto ignora-os e inicia sua aula sobre Iluminismo.

Depois de Hume, Kant foi o próximo grande construtor de um sistema filosófico. Mas a França também teve muitos pensadores importantes no século XVIII. Podemos dizer que o centro filosófico concentrou-se no começo desse século na Inglaterra, no meio do século ficou na França e no final do século ficou na Alemanha.

Nesse período, houve muitos pensadores de grande importância e um modo comum de se pensar tornou-se popular, a esse novo modo de pensar deu-se o nome de “Iluminismo”.

O primeiro ponto do iluminismo que merece destaque foi a revolta contra as autoridades e contra o autoritarismo que se instaurava na época, o qual impunha um conhecimento controlado e que deveria ser filtrado ou restrito para se evitar uma anarquia e/ou heresia em massa. Essa luta era em prol da defesa de uma visão cética de tudo. Isso seria vital para que um individuo pudesse encontrar respostas de uma maneira verdadeira e não viciada em pré-conceitos como era praticado (a essência de Descartes).

A revolta contra o autoritarismo não tardou a se voltar também contra o poder da igreja, do rei e da aristocracia. Então o racionalismo de Hume surge como um novo modo de encarar a religiosidade, ética e moral na visão dos iluministas.

Os iluministas também acreditavam que era uma questão de tempo até que todo o conhecimento fosse difundido entre todos, aniquilando por fim a ignorância e a irracionalidade surgindo assim uma sociedade iluminada e esclarecida. Esse movimento ficou conhecido como “otimismo cultural”.

A palavra de ordem passou a ser “de volta a natureza” e um consenso coletivo passou a permear a sociedade iluminista. Esse conceito foi criado e difundido por Jean-Jacques Rousseau. Ela afirmava que a natureza era boa e que o homem era naturalmente bom, portanto que deixava o homem mal era a civilização criada por ele mesmo.

Desse modo naturalista de pensar, surgiu o que foi chamado de “cristianismo humanista”. Embora nesse período já existissem os chamados ateus (aqueles que não acreditam de Deus), os iluministas acreditavam que, racionalmente falando, era impossível que um mundo tão perfeito não contivesse por detrás um Deus, seja Ele como for.

Por ultimo, nesse período foi criado o conceito talvez mais importante do movimento, “os direitos humanos” ou direitos naturais dos cidadãos. Esse direito garantiria acima tudo a liberdade de expressão e a garantia de que todos devem ser livres em se manifestar e adquirir conhecimentos. Essa primeira versão dos direitos da humanidade não previa a igualdade de maneira clara entre mulheres e homens. Foi somente no século XIX que esse direito foi mais bem definido.

Neste momento, Alberto olhou para o lago e disse que achava melhor encerrar por ali. Sofia não entendeu o “achava” e neste momento uma serpente marinha apareceu no meio do lago. Sofia ficou estarrecida com a visão, mas Alberto não esboçou nenhuma expressão. Após esse acontecimento bizarro, Alberto ficou mais triste aparentemente e ambos entraram novamente para a cabana do major. Então Sofia foi até o quadro na cabana que estava escrito Bjerkely e disse que suspeitava que Hilde morava ali. Abaixo do quadro havia 3 palavras: liberdade, igualdade e fraternidade.

Nesse momento Sofia se vira para a lareira e vê mais um cartão postal. Não se deu ao trabalho de ler o remetente, pois já sabia quem era. No cartão, o Major falava sobre o esquecimento de Alberto em citar que a filosofia do iluminismo foi de vital importância na construção dos ideais e princípios que constitui os pilares da ONU. Antes as palavras liberdade, igualdade e fraternidade tinham como objetivo unir a França. Hoje essas palavras têm como objetivo unir o mundo.

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A mãe de Hilde a chamou para jantar e Hilde foi procurar sobre a história de Olympe de Gouges, personagem ativa no iluminismo e precursora do movimento que deu igualdade entre homens e mulheres.

[parte 26] O mundo de Sofia - Bjerkely

Hilde Moller Knag acorda em sua casa, chamada de "casa do capitão" e localizada nas proximidades de Lillesand. Hoje era seu aniversário de 15 anos, exatamente no dia 15 de junho de 1990. Sentiu que não seria mais a mesma.

Olha em sua volta e todas as memórias lhe viam a cabeça.Tinha longos cabelos loiros e sempre desejou que fossem um pouco mais claros ou então um pouco mais escuros porque essa tonalidade intermediária era inexpressiva.

Hilde olhava-se no espelho e não sabia se via uma criança ou uma moça. Por falar no espelho, segundo contavam, esse espelho veio de um grupo de ciganos e continha um segredo. Se fizesse bastante esforço conseguiria piscar os dois olhos e ainda sim ver seu reflexo piscando sem estar em sincronia com você, mas Hilde nunca conseguiu embora tenha tentando isso muitas vezes.

Então viu que em cima do criado mudo estava um de seus presentes. Ficou na dúvida se deveria abri-lo antes que sua mão lhe viesse dar os parabéns. Decidiu então abrir, afinal era seu aniversário e era seu presente, que mal poderia ter não é?

Quando pegou a caixa viu que era pesada. Abriu e viu um enorme fichário, todo escrito a mão. Será que aquilo era seu presente? O título era “O MUNDO DE SOFIA” e logo abaixo estava escrito “O verdadeiro conhecimento é para o homem como o sol que fecunda o solo

Hilde acomoda-se confortavelmente em sua cama e começa a ler. O primeiro capítulo é “O jardim do Éden”. Começou a ler como quem não queria nada e logo se viu inteiramente mergulhada na história de Sofia, todos os acontecimentos estranhos que havia com ela, na história da própria Filosofia, no seu professor misterioso e também nas “maldades” que seu pai fazia a eles.

A profundidade que se deixou levar foi tanta que ela mal viu seu dia de aniversário de quinze anos passar. Não foi na ultima cerimônia da escola (que selava o final dos estudos) e até em sua festa ela não via a hora de poder voltar a ler aquela história incrível. Queria saber o resto, precisava. Em cada trecho, cada capítulo Hilde sofreu e vibrou com Sofia, sua grande amiga que ainda não tinha conhecido, alias uma injustiça que afinal estava sendo reparada.

Leu cada capítulo atentamente... "Sócrates", "Platão", "Aristóteles" até "Berkeley". Já era tarde, mas não deixava de pensar em tudo que lera e em como Sofia se sentia. Sua mãe veio conversar preocupada com o estranho comportamento de Hilde. Falaram por algum tempo até que Hilde explicou seus sentimentos por tudo aquilo e aparentemente sua mãe ficou mais calma.

Então Hilde seguiu firme na companhia de sua amiga Sofia...


segunda-feira, 28 de junho de 2010

[parte 24] O mundo de Sofia - Hume

Alberto citou o tempo se formando e abafado, mas Sofia o questionou sobre Berkeley

Falaremos sobre Berkeley a seguir, mas antes precisamos ver algumas coisas sobre David Hume (1711-1776) que construiu o que é considerado o mais importante projeto filosófico empírico e foi o inspirador do grande filósofo Immanuel Kant.

Hume cresceu nas proximidades de Edimburgo, na Escócia, e sua família queria muito que ele fosse um jurista. Ele mesmo afirmava que sentia uma aversão a tudo, menos à filosofia e à erudição. Hume vive em pleno Iluminismo e viajou muito pela Europa antes de voltar a morar em Edimburgo. Ele publicou uma de suas mais importantes obras, chamada de “Tratado sobre a natureza humana”, aos vinte e oito anos, mas sempre dizia que desde os quinze anos já tinha idéias para esse livro.

Como empírico fervoroso, Hume parte do princípio que temos que descartar tudo que sabemos e partir do zero. A partir disso, Hume afirma que para ele o homem possui “impressões” e “idéias”. Por impressão ele entende a percepção imediata da realidade exterior. Por idéia ele entende a lembrança de tal impressão,mas sem a riqueza de detalhes que a impressão dado que somente a impressão pode fazer isso.

Por exemplo, quando você queima a mão em algo quente, o que você sente de imediato no momento que está queimando sua mão é a dor da queimadura em si, ou a sua impressão imediata do que é se queimar. O que fica registrado em sua memória após esse fato é a idéia do que foi se queimar, ou seja, uma noção do que é se queimar, mas nunca conseguirá memorizar a riqueza de detalhes que você tem no momento do ato em si.

Continuando, Hume afirma que você pode ter uma impressão ou uma idéia de duas formas: simples ou complexa. Elementos complexos, nesse sentido, são formados de elementos simples. Por exemplo, suponha que nunca ninguém viu um anjo, mas todos nós já vimos seres humanos e animais com asas. Quando falamos que um anjo pode ter a aparência de uma pessoa com asas não fica difícil visualizar isso. É fatos como esse exemplo que Hume chama a atenção. Às vezes afirmamos e creditamos com toda nossa certeza em coisas que nunca vimos só pelo fato que conhecemos coisas mais simples e fazemos a associação disso sem muita dificuldade.

Nessa linha, Hume responde por assim dizer a “noção clara de Deus” apresentada por Descartes. Para Hume, sabemos que Deus é infinitamente inteligente, sábio e bom. Também ouvimos que Deus é um pai justo e severo. Então só podemos ter uma idéia do que é Deus se vermos algo inteligente, bom, sábio, justo, severo e que seja pai. Sem essas observações ou experiências não poderíamos ter a noção do que é Deus. Portanto Deus é algo complexo formando por partes simples com bondade, justiça, inteligência e etc.

Hume ainda elabora algo novo em relação ao “eu" onde ele descreve como uma longa cadeia de impressões isoladas de nós mesmos e que nunca conseguiremos viver simultaneamente. Como Hume mesmo diz: “É um feixe de diferentes conteúdos de consciência, que se sucedem numa rapidez inimaginável e que estão em constante fluxo e movimento”. Em suma, para Hume o homem não possui uma personalidade “base” e sim milhares de personalidade que formam um conjunto que você chama de "eu".

Na religião, Hume achava que era um absurdo racionalista achar que seria possível provar a fé religiosa com a razão humana. Ele era agnóstico, ou seja, segundo ele, não tinha experimentado nada que provasse a existência de Deus mas também não afirmava que Deus não existia porque nunca pode provar isso. Ele simplesmente fazia questão de se mostrar imparcial a isso até que experimentasse algo a respeito. O mesmo ele afirmava em relação a milagres, Jesus Cristo, religiões e afins.

No âmbito da ética e moral Hume se opôs ao pensamento racionalista. Os racionalistas consideravam uma qualidade inata da razão humana o fato de ela poder distinguir entre o certo e o errado. Hume não acredita nessa afirmação e contra-ataca afirmando que isso é feito pelos nossos “sentimentos”.

Um exemplo de fácil entendimento para ilustrar Hume é a medicina atual. Se fossemos analisar somente pelo lado da razão a medicina não deveria curar todos ou sequer existir, pois estamos assim interferindo no processo seletivo natural (o que fortifica a espécie humana) e no equilíbrio entre a humanidade e a natureza. Contudo nossos sentimentos nos impulsionam cada vez mais a fazermos com que um número cada vez maior de seres humanos permaneça vivo e saudável.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

[parte 25] O mundo de Sofia - Berkeley

Alberto e Sofia vêem um avião ao longe trazendo uma faixa escrita “Feliz aniversário Hilde” e some entre nuvens escuras mostrando que uma forte chuva se aproximava. Alberto fala algo sobre o poder do major e Sofia o questiona sobre esse poder. Alberto não fala mais sobre o assunto e volta a falar de filosofia, dessa vez sobre Berkeley.

George Berkeley foi um bispo irlandês que viveu entre 1685 e 1753, mas também foi um filosofo. Berkeley se preocupava com a filosofia e a ciência de seu tempo no que tange a ameaça ao cristianismo e a visão cristã do mundo. Ele também achava que o materialismo colocava em risco a crença cristã que Deus criou e mantém vivo tudo o que existe na natureza. Ao mesmo tempo, Berkeley foi um dos mais coerentes representantes do empirismo pois dizia que as coisas do mundo são, de fato, exatamente da forma como nós percebemos, mas não são coisas.

Berkeley diz que tudo o que existe é só o que percebemos, mas aquilo que percebemos não é matéria ou substância. Para ele é possível induzir alguém a sentir algo, portanto Berkeley acreditava que foi a vontade ou o espírito que faz com que sentimos algo. Quando batemos com força em uma mesa com a mão, não sentimos o material em si da mesa, mas sim sensações que nos dizem que a mesa é sólida e, se batermos com muita força, nossas sensações irão produzir a dor, mas não passa de sensações (nota do Ale: Exatamente o conceito de mundo que vivemos empregado na trilogia dos filmes Matrix).

Em suma, para Berkeley, tudo que vemos e sentimos é um efeito da força de Deus, pois Deus está presente no fundo de nossa consciência e é a causa de toda a multiplicidade de idéias e sensações a que estamos constantemente sujeitos. Toda a natureza que nos cerca, e também toda nossa existência, estariam portanto em Deus. Ele seria a causa única de tudo o que existe.

Então Alberto comenta que possivelmente tudo que cerca ele e Sofia e todos que eles conhecem não passam da demonstração de forma do major. Era como se o major fosse pra eles Deus, dado que o major conduz tudo na vida deles e em volta da vida deles.

Sofia fica a dúvida em forma de pessoa então Alberto explica que se pode aplicar tranquilamente os conceitos de Berkeley a eles em relação ao major. Isso é a única coisa que pode explicar todos esses acontecimentos estranhos como os cartões postais em lugares inusitados, a fala de Hermes como um ser humano e todas as outras coisas estranhas.

Sofia acaba concordando, pois vê coerência em toda essa ligação. Então Alberto sugere que Hilde é como se fosse o anjo do major e que eles são meramente fantoches na mão do major para explicar e contar toda a história da filosofia para Hilde. Assim que Alberto conclui, um estrondo ocorre e uma luz azulada sai do céu iluminando a sala de Alberto.

Sofia então sai dizendo que precisa ir (claro, muito assustada) e, em meio à forte chuva, encontra sua mãe vindo em direção a casa de Alberto. “O que está acontecendo conosco, minha filha?” – pergunta a mãe. Sofia responde chorando “Não sei, mas sinto que estou em meio a um pesadelo”.

terça-feira, 8 de junho de 2010

[parte 23] O mundo de Sofia - Luke

Sofia chegou em casa por volta das oito e meia da noite. Sua mãe já estava nervosa a espera dela então chamou sua atenção. Houve uma breve discussão e Sofia decidiu mostrar a fita de vídeo, feita por Alberto, gravada em Atenas.

Sua mãe ficou impressionada com a fita e disse que parecia muito o antigo major que morava na pequena cabana na floresta.

Passaram-se duas semana sem que Alberto tivesse entrado em contato. Curiosa, Sofia vai até a casa de Alberto ver se o encontra, mas acaba encontrando mais um dos cartões postal que parabenizam Hilde. Nesse cartão, além do parabéns, há também a citação sobre Berkeley e uma frase de humor onde o remetente fala que vai se “arrebentar” de tanto rir quando todo esse mistério ficar esclarecido.

No dia 14 Sofia chega da aula e ver Hermes. Sai correndo junto com o cão para encontrar com seu professor ex-misterioso. No caminho ocorre algo bizarro, Hermes de repente para e FALA com Sofia literalmente, soltando a frase “Feliz Aniversário Hilde”.

Sofia chega a casa de Alberto zangada. Alberto a questiona o motivo e ela conta o episódio de Hermes. Conversam um pouco e Alberto lhe diz que vão estudar sobre os filósofos da experiência, ou os empíricos. São eles Locke, Berkeley e Hume. Então começa:

Loke viveu entre 1632 e 1704 na Inglaterra. Seu livro mais conhecido chama-se “Um ensaio sobre o entendimento humano” de 1690. Nele Loke busca estudar duas questões: 1) De onde os homens tiram os pensamentos e as suas noções? 2) Podemos confiar no que nossos sentidos nos dizem?

Focando na primeira pergunta, Loke acredita que somos vazios de pensamentos quando nascemos e, com o tempo, vamos “enchendo-nos” de pensamentos e conceitos. Então ele separa as idéias em dois grupos. O primeiro grupo ele chama de “idéias sensoriais simples” e são apresentadas à gente pelos nossos sentidos. O segundo grupo de idéia ele chama de “idéias da reflexão” que são idéias mais elaboradas derivadas de nossas dúvidas ou crenças, muitas vezes baseada nas idéias sensoriais simples.

Evoluindo, Loke afirma que, através dos sentidos, só conseguimos ter “impressões simples”. Passamos a evoluir essas impressões após experimentarmos ou sentirmos algo mais que uma simples vez, dando vida então a “implessões complexas” que permitem um entendimento muito mais elaborado sobre algo sentimos.

Loke então estabelece o que ele chama de qualidades sensoriais “primárias” e “secundárias”. Ele atribui as qualidade sensoriais primárias como extensão, peso, forma, movimento e número de coisas. Mas quando vamos falar sobre algo como azedo, doce, salgado, cheiroso, verde, vermelho, quente, frio ele clássica como qualidade sensoriais secundárias porque essas características não representam com exatidão a coisa em si.

Você pode achar uma maçã azeda e seu vizinho pode achar a mesma maçã menos azeda que você. Em suma, uma maçã tem características nativas e imutáveis de pessoa a pessoa como peso, altura e largura, mas essa mesma maçã tem características que são particulares a cada um (como gosto, cheiro, cor e outros), ou seja, cada um de nós vamos sentir algo parecido mas nunca será o mesmo sentido do que o do outro.

Luke também acredita que é inerente à razão humana saber que existe um Deus, pegando assim alguns traços de Descartes. De Descartes também vem outros pontos por ele defendidos como o conhecimento intuitivo (diretrizes éticas para todos) e a realidade estendida (a realidade possui características que o homem pode captar com a sua razão).

Por último, Luke defendia a igualdade entre os sexos e a liberdade de expressão.

sábado, 29 de maio de 2010

[parte 22] O mundo de Sofia - Spinoza

Sofia, para desviar os pensamentos de seu professor frente ao que acabara de acontecer, faz perguntas com a finalidade de prosseguir a aula, então Alberto passa a falar de Spinoza.

Spinoza pertencia a comunidade judaica de Amsterdã, mas não levou muito tempo até que fosse excomungado por heresia. Poucos filósofos dos tempos modernos foram tão humilhados e perseguidos por suas idéias como este homem, que chegou até a sofrer uma tentativa de assassinato. Isso tudo era porque Spinoza criticava a religião oficial porque achava que rituais vazios e dogmas rígidos eram as únicas coisas que mantinham o cristianismo e o judaísmo ainda vivo. Ele foi o primeiro a aplicar a interpretação “histórico-crítica” da Bíblia.

Tudo que Spinoza dizia era que é preciso interpretar os livros bíblicos no contexto de sua época e que o próprio Jesus Cristo pregou que muitos dos dogmas e tradições ainda levado a ferro e fogo pela igreja já fora substituído pelo amor a Deus e aos seus semelhantes. Isso gerou confusões de grandes proporções na vida do filósofo levando até mesmo sua família a afastar-se dele pelo que julgavam ser uma grande heresia. Dado a todo esse turbilhão, Spinoza se recolhe e decide levar a vida como um modesto polidor de lentes, mas se dedicando totalmente a filosofia.

Spinoza era monista, o que quer dizer que ele não acreditava que havia diferença entre substância e alma. Tudo era uma coisa só ou tudo na verdade era o próprio Deus. Quando nos referimos à natureza física, estamos nos referindo a atributos de Deus na visão de Spinoza. Esses atributos contêm o que ele chama de modi (no plural, modus) ou extenção o que faz com que esses atributos sejam apresentados a nós de diferentes formas.

Ele ainda acreditava que somos livres no sentido de sermos plenos no que nossa natureza nos proporciona, não no sentido da liberdade como às vezes acreditamos. Você pode mexer seu dedo livremente, mas somente no âmbito que é possível mexer seu dedo. Não seria possível, por exemplo, colocar seu dedo na estante, dar uma volta e recolocá-lo novamente no lugar quando voltasse porque isso não faz parte da natureza de seu dedo.

Portanto, para Spinoza, Deus nos dá liberdade de sermos plenos, mas dentro de um contexto regido por leis que Ele criou visando nossa plenitude.

Isso remete um pouco à teoria dos estóicos de que não devemos nos deixar levar pelas nossas emoções. Spinoza achava que as paixões humanas, a ambição e o prazer, por exemplo, nos impedem de chegar à felicidade e à harmonia verdadeiras. Mas quando reconhecemos que tudo acontece porque tem que acontecer, podemos chegar, então, a uma compreensão intuitiva da natureza como um todo. Podemos ser levados a experimentar de forma pura e cristalina, o fato de que tudo está relacionado; o fato de que tudo é um. Nosso objetivo é abarcar, num único golpe de vista, tudo o que existe. Spinoza chamava isto de ver as coisas sub specie aeternitatis (sob a perspectiva da eternidade).

Em suma, podemos dizer que Spinoza tenta definir como o ser humano deve viver por métodos geométricos (inclusive o assunto principal de um de seus mais conhecidos livros), ou melhor dizendo, tenta sistematizar nosso modo de vida como fazemos na matemática ao descrever a solução de um problema.

Sofia diz que precisa ir urgente pra casa pois sua mãe a está esperando. Alberto então pergunta se ela não deseja comer algo, uma fruta, antes de ir. Sofia pega uma banana e, ao descascá-la, vê a seguinte mensagem na casca da banana “Aqui estou eu novamente, Hilde. Estou por toda parte, minha filha. Feliz aniversário!”. Ela desiste de comer a banana e ambos ficam mais uma vez intrigados com a situação. Então Sofia sai as pressas para casa pois sua mãe já deve estar preocupada dado o horário.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

[parte 21] O mundo de Sofia - Descartes

René Descartes nasceu em 1596 e durante toda sua vida viajou muito pela Europa. Suas principais características eram de reconhecer sua total ignorância quanto mais passava a estudar. Também só acreditava no que a razão lhe dizia, ou seja, ele acreditava que somente a razão poderia dar o verdadeiro conhecimento a um homem (igual a Platão).

Descartes foi o criador da filosofia moderna. Após a redescoberta dos pensamentos pelo homem renascentista, Descarte cria o sistema filosófico unindo vários temas tendo o objetivo de responder a todas as questões filosóficas importantes.

A primeira coisa que ele se preocupou foi com aquilo que já sabemos, isto é, a questão em saber se nossos conhecimentos são realmente seguros. A segunda questão que mais lhe ocupou a atenção foi a relação entre o corpo e a alma.

Para conseguir responder com clareza a essas duas questões, Descartes define alguns parâmetros iniciais. Primeiro ele declara que tudo é duvidoso e não terá nada como certo em seu processo investigativo. Segundo, ele declara que todas as questões filosóficas devem ser respondidas através de descrição precisa e exata, como os conceitos matemáticos funcionavam.

Para iniciar, Descartes observa que somos imperfeitos, logo algo perfeito deve existir para que imperfeitos existam, com isso ele prova a existência de um Deus. Uma observação importante é o fato que ele afirma que só o conceito de um Deus (da perfeição) não basta. É obrigatória a existência desse Deus, pois não há como algo perfeito apenas no abstrato criar ou dar forma a coisas perfeitas no mundo real.

Partindo desse início, Descartes prossegue dizendo que todas as noções de realidades exterior que possuímos (como Sol, Lua, Estrelas) pode ser afirmada como algo real e sem distorção porque o Deus perfeito citado não teria o porque de mostrar essas realidades exteriores de forma distorcida ou diferente da realidade verdadeira. Então ele separa tudo em duas formas (ou substância): pensamento (alma) e extensão (matéria).

A alma é a consciência pura, não ocupa lugar no espaço e não pode ser dividida em partes menores. A matéria é só a extensão da alma e pode ser decomposta em partes menores, podendo ser medida, mas não possui consciência. Essas duas partes provem de Deus, pois só Deus existe independente da existência dessas duas partes. Por essas idéias Descartes é chamado de dualista (alma e matéria).

O homem, assim como os animais, possuía os dois elementos e formavam assim máquinas avançadíssimas para Descartes. Ele acreditava também que essa ligação das duas partes era feita por alguma glândula localizada no cérebro e afirmava que a alma detinha o controle total dado que os pensamentos podem existir independentemente do estado do corpo, ou seja, a alma (pensamentos) era independente do corpo embora interagisse com ele a todo o momento, mas o corpo sem a alma não detinha nenhum significado.

Então Alberto chama Sofia para mexer em um microcomputador e mostra um programa que simula uma conversa com dados pré-gravados, ilustrando assim a idéia de Descartes.

De repente, o computador começa a interagir sem que Alberto acione o programa e então a máquina diz ser o Major Albert Knag e irrita profundamente Alberto. O programa deseja feliz aniversário a Hilde e se encerra de repente.

Alberto, mesmo irritado, chama Sofia para continuar a aula...

sexta-feira, 7 de maio de 2010

[parte 20] O mundo de Sofia - O barroco

Sofia ficou alguns dias sem notícias de Alberto. No dia 29 de maio, Sofia estava lavando louça na cozinha quando ouviu a noticia que um major da força de paz da ONU havia morrido no Líbano. Emocionada, Sofia chora por suspeitar que se tratava do pai de Hilde. Sua mãe, preocupada, indaga Sofia sobre sua forte reação, dado que não conhece todo o contexto que Sofia está inserida.

Ambas discutem e uma série de perguntas são feitas pela mãe de Sofia sobre todos esses mistérios que rondam as duas ultimamente. Sofia aproveita para também fazer uma série de perguntas sobre seu pai e o relacionamento estranho que ele tem com usa mãe, principalmente no que diz respeito ao tempo longe de casa. Então as duas resolvem esclarecer esses pontos, pelo menos de uma forma geral e sem entrar em muitos detalhes. A conversa termina com a sugestão da mãe de Sofia de convidar Alberto para o aniversário de 15 anos da filha.

No dia 31 de março, quinta-feira, Sofia termina de assistir as aulas a muito custo dado à aproximação das férias. Na ultima aula, no momento em que o professor lhe entrega o caderno de tarefas, um cartão postal cai no chão. Trata-se de mais um cartão do pai de Hilde para sua filha onde ele cita a idéia de se criar um pequeno livro de filosofia da ONU com a finalidade de levar um pouco mais de conhecimento aos povos menos favorecidos de conhecimento como o povo do Líbano, uma vez que ele cita sentir nisso uma das razões de todo o cenário de guerra. Ele cita também que irá ajudar a Hilde encontrar a moeda de 10 centavos que ela perdeu, dado a entender que isso será feito por Sofia.

Jorunn vê Sofia ler o cartão e indaga sobre a data acreditando que se tratava de 15 de junho como os outros cartões. Sofia então percebe que a data era do dia anterior (um dia depois do acidente do Líbano). Então elas passam a falar sobre o aniversário de Sofia no dia 15 de junho.

Sofia chega em casa e vê Hermes no jardim. Sai com ele pra ir até a casa de Alberto, dessa vez com o dinheiro do ônibus no bolso. No caminho Sofia filosofava sobre Hermes e o mundo animal. Ao passar pelo ponto onde Sofia achou a moeda anteriormente, Sofia encontra outro cartão postal do pai de Hilde. Nesse cartão o pai de Hilde filosofa sobre a moeda encontrada por Sofia anteriormente e mais uma vez dá a entender alguns pontos que Sofia provavelmente irá ver com Alberto em sua próxima aula.

Ao chegar na casa de Alberto, Sofia lhe entrega o cartão. Alberto reage um tanto agressivo e Sofia decide não falar sobre o cartão que encontrou na escola. Então ambos começam a dialogar dando início à aula.

O período Barroco caracteriza-se principalmente pela extravagância e exageros. Também tem em sua essência a tensão entre opostos irreconciliáveis. Viam-se comumente fortíssimos contrastes em todas as áreas da vida (religião, ciência, arte e outros). Alguns defendiam a idéia do “aproveite o dia”, “a vida é breve” e outros idéias totalmente opostas.

Foi a época do renascimento do teatro, de William Shakespeare, Thomas Hobbes e de modos de pensar contraditórios como o idealismo (consideravam a existência algo fundamentalmente anímico e espiritual) e o materialismo (consideravam a existência através de coisas concretas, materiais). Também foi o período que contempla o nascimento da visão mecânica do mundo onde tudo era comparado a máquinas, inclusive o que consideravam a máquina perfeita, o homem.

Mas os dois filósofos mais importantes do século XVII foram Descartes e Spinoza e é sobre eles que iremos aprofundar.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

[parte 19] O mundo de Sofia - O renascimento

Jorunn estava esperando aflitamente Sofia chegar. Disse que sua mãe e seus pais tinham perguntado sobre Sofia e que ela tinha dado algumas desculpas, mas que a situação estava bem difícil. Sofia explica tudo, pede desculpas e corre para arrumar a bagunça.

Sofia chegou em casa e encontrou o almoço pronto. Depois do almoço subiu para dormir muito cansada. Teve novamente uma experiência meio assustadora com o velho espelho de latão que estava em seu quarto. Por um momento pareceu que uma estranha (Hilde) lhe apareceu no espelho. Como estava muito cansada decidiu ir dormir e pensar nisso depois.

Sonhou que estava em um lugar com uma moça de mesma idade que a sua. Essa moça não conseguia ver Sofia. Alguém a chamou com o nome de Hilde e ela saiu correndo. Ao fundo havia um homem de boina azul que a abraçou e rodopiou no ar, demonstrando imensa alegria ao vê-la. Sofia olha para baixo e vê que a moça esqueceu um cordão de ouro com um crucifixo. Pega-o na mão para levar à moça, mas acorda nesse momento.

Ao acordar e arrumar a cama, descobre uma corrente com um crucifixo embaixo de seu travesseiro e se aborrece muito com essa situação dado que mais uma vez não tinha a menor idéia do que estava havendo.

No domingo, Sofia se levanta para tomar café. Algo raro dado que sua mãe dificilmente acordava antes que ela, mas quando isso acontecia o café era maravilhoso.

Sua mãe a informa que há um cachorro no quintal. Sofia imediatamente reconhece Hermes e vai até o quintal para encontrá-lo. Diz a sua mãe acreditar que o cachorro tenha o endereço de sua casa na coleira e que iria levá-lo para seu dono. Sofia então sai de casa seguindo Hermes e segue-o por toda a cidade, andando quase 2 horas e atravessando toda a cidade.

Quando chega a um velho bairro, Hermes arranha a porta de uma das casas parecendo indicar a alguém que tinha chego. Sofia olha atentamente na caixa postal da casa e vê um cartão postal. Pega-o e vê que era um cartão postal pra Hilde dizendo que Sofia iria encontrar naquele momento seu professor de filosofia. O cartão também trás uma comparação entre a vida de um homem e os períodos da humanidade (a antiguidade = infância do homem, a idade média = a fase escolar do homem e a o renascimento = à juventude do homem) dando uma espécie de introdução para o que Sofia iria aprender naquele dia.

Sofia entra na casa de Alberto (seu professor ex-misterioso) e o encontra vestido com uma roupa parecida com a de um palhaço (roupa característica da época Renascentista e até hoje usada pela guarda do Vaticano). Sofia conta a Alberto sobre o cartão. Alberto reage com certa ira ao saber dizendo que “o cara” estava muito audacioso, mas Sofia não entende muito o que ele quis dizer. Então Alberto inicia sua “aula” dizendo que irá falar sobre o renascimento e seus principais ícones.

Sofia percebe então o quão esquisito era a casa de Alberto. Havia inúmeras “quinquilharias” antigas e comenta sua estranheza com Alberto. Alberto explica que aquelas peças eram mesmo peças muito antigas e de colecionador. Algumas até valiam pequenas fortunas, então começa sua aula.

Por Renascimento entende-se um período de apogeu cultural que iniciou no final do século XIV. Ele começou no Norte da Itália e depois se expandiu rapidamente rumo ao norte ao longo dos séculos XV e XVI.

A palavra Renascimento foi usada para referenciar quando o homem começa a reviver os conhecimentos adquiridos na antiguidade, libertando-se do espírito opressor da igreja (vigente na idade média), portanto há o renascimento dos conhecimentos da antiguidade e há também o renascimento do homem.

Essa época foi marcada pelo surgimento de diversos conceitos voltados para o homem e seu comportamento como o individualismo, a dignidade do homem e o homem renascentista (com diversas quebras de paradigmas de comportamento e pudor).

Também teve o surgimento de novos métodos científicos onde não mais havia a limitação de se basear apenas em documentos antigos de outros estudiosos (pratica comum na idade média). Agora seria reutilizado o método empírico de pesquisa, onde os estudiosos iniciariam com suas próprias experiências usando seus sentidos, como já eram feito na antiguidade, mas enfatizando a importância de se expressar numa linguagem precisa como a matemática. Surgem alguns nomes célebres como Galileu Galilei, Francis Bacon, Copérnico, Johannes Kepler, Isaac Newton e muitos outros.

Em 1953, Copérnico surgiu com uma idéia que a Terra girava em torno do Sol, indo de encontro com o que se acreditava até então. Ele também afirmava que a trajetória que a Terra fazia em torno do Sol era circular. Com essas afirmações, é criado o conceito de visão heliocêntrica do mundo, onde o Sol passa a ser o centro de tudo. Mas Copérnico não tinha nenhuma prova substancial para validar sua afirmação.

Então, no início do século XVII, Johannes Kepler apresentou resultados que comprovavam as suspeitas de Copérnico. Kepler afirma, porém, que a trajetória que a Terra faz e torno do Sol é elíptica e prova isso com exaustivas observações. Kepler avança em seus estudos e comprova que os planetas se movimentam tanto mais rapidamente quanto maior é sua proximidade do sol e mais lentamente quando sua menor é sua distância do mesmo. Por fim, ele afirma que essas mesmas leis físicas valem para todo o universo.

Mais ou menos na mesma época, Galileu Galiei conseguiu observar com mais detalhes corpos celestes como as crateras da Lua e as quatro luas em volta do planeta Júpiter, mas sua descoberta mais importante foi a lei da inércia em que afirma “todo corpo permanece em estado de repouso absoluto ou de movimento uniforme em linha reta enquanto não é obrigado a alterar este estado pela ação de forças que atuam fora”.

Baseado nas pesquisas de Galileu e Kepler, Isaac Newton (1942 – 1727 d.C.) cria a descrição definitivas do sistema solar e dos movimentos dos planetas. Newton também explica precisamente o por que desses movimentos e formula a conhecida lei da atração universal (“todo objeto atrai outro objeto com uma força que cresce proporcionalmente ao aumento do tamanho dos objetos e diminui proporcionalmente ao aumento da distancia que separa os objetos”) formando a base da física que conhecemos.

No renascimento também encontramos rupturas nos comportamentos religiosos, criando uma nova visão de Deus. Estudiosos como Matinho Lutero e Erasmo de Roterdã reformaram conceitos que estavam, segundo eles, desviados da verdade principal. Não havia necessidade de atalhos para o perdão e conversa com Deus como era pregado e exigido. Indulgências e a figura da igreja não era necessariamente o único meio do homem se achegar a Deus. Surgem também às primeiras traduções da bíblia sagrada para as linguagens corriqueira da época (a bíblia até então só existia em Latim) e Lutero faz a primeira tradução da bíblia para o alemão.

Ao final da aula, Sofia pergunta a Alberto se Alberto é o pai de Hilde. Alberto afirma que não, mas chama Sofia de Hilde em um determinado momento, deixando Sofia mais confusa ainda. Sofia tenta fazer mais questionamentos, mas Alberto então diz que está cansado deixando claro à Sofia que desejaria que ela fosse embora. Sofia se despede de Alberto e, ao sair, escuta de Alberto “Até breve Hilde”.

Já na rua, continua confusa e começa a ficar nervosa com tanto mistério. Então lembra que está tarde e está sem dinheiro pra chegar em casa rapidamente. É quando acha uma moeda caída no chão na quantia exata para pegar o ônibus. Já no ônibus, percebe a coincidência e fica a pensar sobre tudo que está se passando, na aula de filosofia e nos mistérios que estão a cercando.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

[parte 18] O mundo de Sofia - A idade média

Nas semanas seguintes Sofia não teve notícias de seu professor misterioso. Nesse tempo não recebeu nenhuma carta ou cartão e aproveitou para reler os materiais que já tinha recebido, inclusive na esperança de encontrar alguma resposta para o mistério de Hilde e seu pai.

No dia 25 de maio, a noite, Sofia estava lavando louça em sua casa e, de repente, viu um cartão postal colado no vidro da cozinha. Era um cartão do pai de Hilde em que ele dizia acreditar que os tempos passavam de forma diferente quando se comparava o tempo dele e de Hilde com o tempo de Sofia. No final ele deixa um PS à Hilde “Você poderia dizer a Sofia que eu lhe mando um abraço? A probrezinha ainda não entendeu a relação entre as coisas. Mas você sim, não é?

Sofia só tem certeza de uma coisa, ela realmente não tinha idéia de nada a respeito de Hilde. Então o telefone toca. Era seu professor misterioso dizendo que não haveria mais cartas e que precisaram correr com o curso de filosofia porque o tempo estava se esgotando. Então ele combina com Sofia de se encontrar na igreja Santa Maria, sozinhos, às 4 horas da manhã.

Sofia concorda e pede a Jurrun que a ajude. Jorunn aceita e então Sofia diz a Mãe que irá dormir na casa de Jorunn como sempre fazia (Sofia até desconfiava que a mãe gostasse para poder sair um pouco também).

As 4 da manhã, Sofia vai até a igreja e, pra sua surpresa encontra-a com as portas abertas. Essa igreja era sempre reservada o publico e suas portas ficarem abertas as 4 da manhã era algo bem estranho.

De repente, uma pessoa vestida de monge entra e faz uma oração. Era seu professor Alberto que se senta ao seu lado e começa a lhe falar sobre a idade média.

A idade média durou aproximadamente 1.000 anos. Muitos acreditam que ela representa o período de trevas do conhecimento humano, ou seja, o período em que os humanos não evoluíram em seus conceitos sociais, científicos ou filosóficos. Entretanto há muito que contestar dado que houve o crescimento e amadurecimento em algumas áreas como, por exemplo, o surgimento dos modelos de escolas como conhecemos assim como as faculdades. Também temos o surgimento de grandes metrópoles, dos contos de fadas, canções populares e muitos outros.

Durante esse período surgem dois filósofos (ou estudiosos por assim dizer) que se destacam. Um dele foi santo Agostinho (354 – 430 d.C). Agostinho resume o final da Antiguidade e os primórdios da Idade Média. Ele pesquisou muito outras tendências filosóficas antes de se tornar Cristão. A que se mostrou mais forte antes de sua conversão foi a corrente Neoplatônica.

Agostinho desenvolveu, após sua conversão e seus estudos, um conceito que fundia o cristianismo com o neoplatonismo. Segundo ele, Deus havia criado o mundo a partir do nada (como dizia a bíblia) mas antes de Deus ter criado o mundo, as idéia do que seria criado já existiam na cabeça de Deus. Ele atribuiu o conceito das idéias eternas de Platão (ou da doutrina de Plotino) a Deus e com isso juntou os conceitos do Neoplatonismo e Cristianismo.

Prosseguindo, Agostinho explica que entre Deus e o homem há um abismo intransponível como cita a bíblia, refutando a doutrina de Plotino sobre tudo ser uma coisa só, mas afirma que somos seres espirituais (capazes de reconhecer a Deus) que habitam em corpos materiais que sofrem a corrosão do tempo. Agostinho também diz que toda a raça humana foi amaldiçoada pelo pecado de Adão e Eva, por isso somente Deus decidiria quem poderia ser levado ao céu ou perecer no inferno. Ele usa as palavras de Paulo aos Romanos onde Paulo diz que não nos cabe decidir pra que fim viemos (céu ou inferno) assim como um punhado de barro não pode decidir no que será usado pelo oleiro. Em suma, Agostinho acredita que Deus já sabe o que acontecerá com cada pessoa antes mesmo de nascermos. Agostinho escreve uma obra chamada “A cidade de Deus” onde deixa claro todos esses pontos. Também fala sobre o que é reino de Deus e reino do mundo assim como a afirmação de que não há salvação fora da igreja.

Agostinho foi o primeiro filósofo a inserir a história em seu projeto filosófico quando se referia aos acontecimentos registrados entre bem e mal, retornando à visão linear do tempo (traço marcante da cultura semita).

O segundo filósofo de destaque é são Tomás de Aquino (1225 – 1274 d.C). Percebemos uma certa divisão entre cristianismo e filosofia na antiguidade mas, de uma forma breve, podemos dizer que são Tomás cristianizou Aristóteles como Agostinho fez com Platão. Isso era algo comum para a época dado a predominância cristã.

Para são Tomás, só pela fé e pele revelação cristã é que podemos chegar às verdades puras ou “verdades da fé”. Contudo havia também, segundo são Tomás, as “verdades naturais teológicas” ao lado das verdades da fé. Por verdades naturais teológicas se entendia que são às verdades que se conhecem tanto pela fé cristã quanto pela razão. São Tomas ilustrava isso quanto citava a existência de um Deus. Você pode saber que Deus existe pela fé ou pelo cominho de ver Sua existência ao olhar para as coisas no mundo.

Outro dito interessante de são Tomás é sobre como podemos conhecer Deus. Ele dizia que ao lermos um livro qualquer, podemos dizer algumas coisas sobre o autor. Não dados pontuais como idade ou local onde mora (a não ser que o autor faça questão de citar), mas podemos saber um pouco da essência do autor pela sua obra. Assim somos nós perante Deus ao estudarmos a bíblia. Podemos conhecer melhor a essência de Deus quando estudamos Suas obras. Aprofundando nisso, são Tomás acreditava em um grau de existência e numa escala representativa até chegar a Deus. Esse grau iniciaria nas plantas e animais, passaria pelos homens e sua necessidade de reflexão para conhecer a verdade, subiria para os anjos e seu conhecimento instantâneo de tudo (por isso não precisam de um corpo e também não morrem) chegando até o trono de Deus.

Infelizmente são Tomás também adquiriu a visão de Aristóteles quando se tratava das mulheres. Para ele, as mulheres eram homens mal formados, mas para são Tomás isso se dissiparia no céu dado que todas as almas são iguais perante Deus.

Apesar de não ser muito comentado, durante a idade média uma mulher também teve muito destaque. Seu nome era Hildegard Von Bingen (1098 – 1199 d.C). Ela era uma freira que fazia sermões, escritora, médica, botânica e pesquisadora natural.

Sofia fica insistindo com seu professor para saber se Hildegard tem algo a ver com Hilde

Havia uma crença cristã e judaica segundo o qual Deus não era apenas homem. Ele teria também um lado feminino, ou uma “natureza materna”. Em grego, a palavra para este lado feminino de Deus é Sophia (ou Sofia) que significa sabedoria. Isso ficou meio no esquecimento até que Hildegard afirma que Sophia lhe apareceu em visões usando uma túnica toda ornamentada de pedras preciosas...

Sofia deu um salto e disse “Talvez eu também apareça para Hilde”.

Seu professor pediu pra que ela se acalmasse e informou que Hermes a buscaria depois para as próximas aulas, mas por hora ela precisava voltar para casa porque já era meio dia. Então se despediu, levantou e foi embora.

Quando estava saindo, Sofia lhe perguntou se havia algum Alberto na idade média. Seu professor para por um instante, se vira e diz que o grande mestre de filosofia de são Tomás de Aquino se chamava Albertus Magnus. Então ele tornou a rumar para dentro da igreja. Sofia tentou segui-lo, mas ao entrar atrás dele na igreja só encontrou o templo vazio, ele tinha sumido! Então saiu correndo para casa de Jorunn.